Um debate que se impõe

“Roma não foi amada por ser grande, Roma foi grande porque foi amada”. Parto desta frase de Chesterton (que cito sem ter comigo a obra onde a li, admitindo desde já alguma imprecisão) para falar sobre Guimarães.

Nas últimas semanas o Centro Histórico e a “parte antiga” de Guimarães estiveram presentes nas reflexões de Rui Vítor Costa, Rui Armindo Freitas e de Samuel Silva. Quem ler estes artigos facilmente perceberá que, de uma forma geral, a preocupação manifestada pelos seus autores é semelhante: o centro histórico não pode ser só um parque de diversões e não deve ser “disneyficado”.

Em tempos, aqui no Duas Caras, tive ocasião de partilhar a minha opinião sobre o assunto escrevendo o seguinte: Como tem vindo a ser referido por diversas pessoas o “Centro Histórico”, na área que abrange as praças da Oliveira e de Santiago e ruas adjacentes, tem sofrido uma enorme pressão. Poucos são os eventos que ocorrem fora daquela área. E muitos são os riscos associados a esses eventos. Desde riscos relativos à conservação do próprio património, até à saturação dos moradores daquelas zonas (e a sua subsequente desertificação), passando pelo próprio desinteresse de certos turistas que procuram Guimarães mais pelo seu património do que por festas e eventos que são praticamente iguais em todo o lado. Fica portanto a sensação que fazer da “festa” o motor daquela área do “Centro Histórico” foi uma fórmula que falhou.

Na semana passada (03/08) foi inaugurado o Parque Camões um equipamento que se pretende estruturante e que, funcionando bem, irá alterar a forma como os vimaranenses de todo o concelho e quem nos visita pode aceder à cidade, contribuindo para facilitar o acesso ao comércio, aos serviços e a tudo o que o centro da cidade tem para oferecer. A este novo equipamento juntam-se outros (como a futura “Escola-Hotel” a instalar na Casa do Costeado, as escolas de Artes Performativas e novas instalações da Academia de Música no Teatro Jordão, entre outras), novos edifícios habitacionais (em construção um pouco por toda a cidade) e investimentos que podem ter um impacto significativo no centro da cidade (como a requalificação do antigo edifício dos Correios, o novo alojamento com cerca de 700 camas previsto para perto da Universidade do Minho, ou as possíveis requalificações de centros comerciais semi-devolutos).

Todos estes projectos são, em princípio, positivos para Guimarães. Contudo a sua concretização vai mudar a forma como vivemos a cidade, isto numa altura em que se têm manifestado muitas preocupações relativas ao seu futuro…

Creio que poderá ter chegado a altura de fazer um debate público sobre o futuro da cidade de Guimarães e do seu Centro Histórico. Um debate genuíno, que não se limite a ser uma apresentação de um plano já definido (como infelizmente tem acontecido ultimamente), ou um coro pouco afinado e desinformado de indignados. Um debate em que todos possam participar e apresentar o seu ponto de vista de uma forma construtiva.

Francisco Brito (Guimarães, 1983). Licenciado em História pela Universidade do Minho. Investigador do CITCEM (com interesse em história política, social e militar). Livreiro alfarrabista.