Tiago Laranjeiro: “Sejamos todos democratas praticantes a 26 de Abril”

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Falar sobre a revolução do 25 de Abril é falar sobre o valor da liberdade.

A liberdade resgatada após quase meio século de ditadura.

E essa celebração, a celebração da liberdade, é uma celebração que julgo unir todos os que aqui estão presentes.

É a liberdade que é cantada por tantos poetas. De Sophia de Mello Breyner a Ary dos Santos, de Natália Correia a Manuel Alegre e Zeca Afonso.

De facto, existe esta associação clara da revolução de Abril com a palavra.

Hoje, um pouco por todo o país, os portugueses reúnem-se em torno desta celebração. Em sessões solenes de órgãos autárquicos, na Assembleia da República, em coletividades, em família. Em discursos, em canções, em poemas, em conversas, em debates. Recordam este património por todos partilhado, que nos deixaram de herança os capitães das Forças Armadas. E se há algo que é transversal a todas estas celebrações, é a palavra.

E não o é por acaso. Afinal, foi Abril que nos deu a capacidade de nos exprimirmos livremente, sem censuras. Que nos libertou as palavras. E foi Abril que abriu caminho à democracia em que vivemos. Democracia que vive também, mais que qualquer outro regime, da palavra. Do debate.

Hoje, estamos aqui todos reunidos, no palco da democracia local. Todos celebramos este legado, independentemente do nosso posicionamento político, das nossas convicções de regimes, das nossas crenças mais profundas ou opções de vida.

Quaisquer que sejam as caixinhas em que nos cataloguemos, estamos aqui a celebrar um património comum. Um património de palavra. Porque não há nada mais forte que uma ideia. E só pela palavra conseguimos expressar e assim libertar o pensamento. E daqui devem resultar os atos.

Sou de uma geração que nasceu já a democracia estava consolidada. Uma geração relativista, mas que no seu relativismo preza, talvez como nenhum outro, o valor da liberdade, em particular a sua manifestação da liberdade individual de sermos o que quisermos. Sou de uma geração que, tomando por garantida a liberdade e a democracia, está cansada do estado de coisas do regime. Que se cansa de discursos, de palavras, que depois não se traduzem em atos nem em resultados satisfatórios. Uma geração que vive entre a revolta e o conformismo de ser a primeira geração nos últimos séculos cujas perspetivas futuras não são melhores que a da geração que a antecedeu.

A liberdade e a democracia são legados a preservar. E essa é uma responsabilidade de todos, cidadãos, e em particular aos de nós que têm responsabilidades políticas.

Hoje, são muitos os desafios que se colocam à nossa democracia. O desafio da participação, para que a democracia não se cinja à eleição dos representantes. O desafio da abstenção. O desafio do desligamento das novas gerações com o sistema político. O desafio dos populismos, que se alimentam de ressentimentos. Transversal a estes problemas, que todos aceitamos como ameaças à democracia, é a dificuldade de ouvir. E, ouvindo, de traduzir em atos, de incluir essas opiniões na ação política.

Penso que também todos aceitamos estas ameaças como problemas comuns à democracia.

Uma causa comum aos problemas enunciados é precisamente a dificuldade em escutar. Porque a escuta pressupõe audição atenta das palavras dos outros. Pressupõe respeito pela opinião diferente da nossa. Porque ninguém é dono da verdade, e a democracia faz-se precisamente com o debate entre visões e opiniões conflituantes, que convergem ou divergem, mas que têm de ser incluídas nos processos de discussão e de ação, para o bem comum. E para isso precisam de tempo e de espaço para ocorrerem, não podendo ficar restringidos ao espaço e ao tempo de maiorias conjunturais, sob o risco de se marginalizar amplos grupos da comunidade a que pertencemos.

Para que a liberdade e a democracia se cumpram, não podemos ser apenas democratas não-praticantes. Daqueles que vão ao sacramento do plebiscito e que, cumprido esse dever, percorrida essa “via sacra”, seguem depois suas vidas como se nada fosse. E destes democratas não-praticantes há os que sejam cidadãos e eleitos. Eleitos que, depois de sufragados e ungidos no sacramento eleitoral, esquecem que a democracia é mais do que o plebiscito quadrianual, mas uma responsabilidade de todos os dias.

Uma responsabilidade que vai para além da mera observância das exigências legais, cumprida como se uma “checklist” fosse, em que se marcam de cruz os requisitos cumpridos. Mas que exige uma atitude, desde logo de humildade, para esquecer maiorias conjunturais e, verdadeiramente, ouvir o outro. Sejam o outro as forças políticas da oposição, sejam os cidadãos sem filiação política. Sejam indivíduos com opinião divergente no seio das próprias forças políticas.

E esta escuta ativa do outro não se resolve com leis, mas com atitudes de abertura, com respeito pelas suas ideias e propostas, com transparência. Não ocultando a informação que é útil aos cidadão, como se vê hoje quando todos os Portugueses são chamados a pôr do seu dinheiro para resolver problemas financeiros da banca, mas maiorias conjunturais sonegam-lhes o direito de conhecerem que são os grandes devedores, responsáveis pelo ponto de rutura a que estas instituições chegaram.

Uma escuta ativa que pressupõe espaço e tempo para estas opiniões. Para as opiniões de todas as forças políticas, dos cidadãos independentes, das organizações da sociedade civil. Não restringindo, sob argumentos ponderosos e sonantes, como da “eficiência”, para retirar espaço e tempo à discussão democrática no palco da democracia local.

E uma escuta ativa, inclusiva, respeitosa, exige que se oiçam as opiniões diversas, sem deturpar nem usurpar o que o outro diz ou as suas propostas. Sem fazer de quem pensa diferente, mesmo de quem seja adversário político, um inimigo, pegando nas suas críticas conjunturais e transformando-as artificialmente em oposições estruturais.

Meus caros, sou dos que acredita que falta mais fé na política. Fé na democracia. E que essa fé só se cultiva pelo exemplo. Sendo democratas-praticantes.

Porque ou praticamos a democracia no quotidiano, ou a democracia transforma-se em algo diferente, deturpado. Perde a sua essência. Deriva para um regime com contornos democráticos mas de essência autocrática, como vemos em tantos países, até na Europa.

E ou transformamos em atos a fé na democracia e na liberdade, que neste dia todos professamos, ou arriscamo-nos a que este regime apodreça.

Palavra. Opinião. Escuta. Inclusão. Ação.

Cinco conceitos, interligados, essenciais à democracia. Cinco conceitos herdeiros da liberdade e da revolução. Cinco preocupações que todos devemos pôr em prática. Mais do que em palavras, em atos. Para construirmos uma melhor democracia. Para honrarmos o legado da liberdade.

Fica o apelo aos democratas do dia 25 de Abril. Sejamos todos democratas praticantes a 26 de Abril. Hoje, exiba-se o cravo. Amanhã, levemos à prática a sua simbologia. Hoje, evoque-se o dia. Amanhã, pratique-se Abril. E assim cumprir-se-ia Abril.

Viva o 25 de Abril!

Viva Portugal!