Salas de estar

Volta e meia sou assombrada pela falta de sono. Falta de sono talvez não seja a expressão mais correta, porque o sono está lá, ou cá, algures. O que se passa é que desde a hora em que me deito até às 5h, 6h da manhã, ele esconde-se.

Insónias, é o termo. Mas insónias diz apenas respeito ao período da noite em que não dormimos. E o que chamar ao dia seguinte?

Durante o tempo em vigília, quanto mais o tempo passa, mais o meu cérebro me surpreende. Quando anseio por adormecer, as ideias não param de aparecer, coisas que são nebulosas durante o dia tornam-se cristalinas às 2h da manhã, decisões que estão em processo de resolução parecem fáceis às 3h da manhã, memórias que me escapavam aparecem facilmente às 4h da manhã e não há problema que não se resolva às 5h da manhã. Desconfio que se ficasse acordada mais do que dois dias, conseguiria pensar numa forma de levar a paz ao Médio Oriente.

Mas não, mal adormeço, todo este trabalho intensivo desaparece mal o cansaço me derrota. De manhã, cheia de sono, todas as coisas que me passaram pela cabeça durante o período de insónia estão transformadas numa pasta de pensamento que provavelmente está para ali algures a atrapalhar. Tomo cafés em série na esperança de que o meu cérebro desperte e volte a ficar tão ágil como nessa mesma madrugada.

E ao fim desse mesmo dia, quando estou cansada e cheia de sono, volto a pôr a cabeça na almofada e o meu cérebro parece que acorda de uma longa e repousante noite de sono. E tudo começa outra vez.

O nosso corpo prega-nos partidas. Às vezes parece que estamos em luta connosco e mal temos tempo para respirar e perguntar porque lutamos tanto. E depois, um dia, tudo passa. E o sono acerta os ponteiros como o nosso ritmo. Nos entretantos, passamos os dias a dormir, a vida a dormir.

Este pensamento leva-me para uma frase dita num filme “Acordar para a vida” do Richard Linklater: “The worst mistake you can make is to think you’re alive, when you’re really just asleep in life’s waiting room.” E escrevo isto e entusiasmo-me, porque me lembro que há uns tempos escreve aqui uma crónica sobre salas de estar e percebo que o perigo, o perigo é sempre o mesmo, as salas são sempre salas ainda que feitas de paredes diferentes.

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.